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Entrevista Codem para O Diário

Economista do Codem comenta medidas adotadas pelo Governo Federal para tentar conter a crise

O Economista do Codem, João Ricardo Tonin, foi entrevistado pelo jornal O Diário, para falar a respeito das medidas adotadas pelo governo federal para tentar conter a crise.

“Quando a meta fiscal cai o credor fica mais receoso em relação à garantia de recebimento”

O governo federal anunciou novo ajuste na meta fiscal, que na prática é a diminuição do superávit (diferença entre a arrecadação e os gastos). As consequências imediatas, segundo o professor e mestre em Economia da Universidade Estadual de Maringá (UEM), João Ricardo Tonin, são o aumento do risco Brasil, da taxa de câmbio, dos juros e, possivelmente, da inflação. “Pior seria se decidissem manter a meta e, ao final do ano, a meta não fosse alcançada. A reação internacional seria maior e teríamos uma maior evasão de investidores e o dólar poderia chegar aos R$ 5”, considera. Com a divulgação da notícia, o impacto é diluído em período mais longo de tempo, analisa Tonin, que na entrevista abaixo avalia os efeitos da medida na economia.

P.— O que significa a meta fiscal que o Governo Federal decidiu reduzir esta semana?
R.— O governo federal tem que manter uma meta de superávit para garantir o pagamento dos juros. Ou seja, precisa gastar menos do que arrecada para ter sobras. A previsão desta sobra que é a meta fiscal, estava em 1% e, agora, foi reduzida para 0,15%.

P.— Então o governo federal terá menos recursos e deverá gastar menos?
R.— Exatamente. Para atingir a nova meta, vai ser preciso cortar gastos. O resultado prático é que dificilmente o orçamento projetado para 2015 vai ser consolidado. Até então, se esperava um volume de recursos e, agora, se sabe que este montante não vai ser arrecadado. É por isto a situação do corte da meta fiscal.

P.— E estamos falando de um segundo corte, pois no primeiro semestre houve uma redução ainda mais significativa?
R.— Sim. O bom seria se a meta fiscal ficasse em níveis de 3% do Produto Interno Bruto (PIB). Hoje, a meta está muito próximo de zero e, se ficar negativa, o Brasil vai ser obrigado a pegar recursos de terceiros, provavelmente empréstimos externos para pagar as contas.
P.— Por que 3% seria um bom porcentual ?
R.— O Brasil emitiu e ainda emite títulos públicos e, por esta razão, tem que pagar os credores. Estes títulos são indexados no câmbio e na taxa Selic. Quando se tem credores externos, é necessário garantir que parte dos recursos que são arrecadados pelo governo vão sobrar para que se faça o pagamento deste títulos. Se não sobra para pagar, há uma necessidade de lançar mais títulos, o que provoca o aumento no endividamento. Quando a meta cai, o credor fica receoso em relação ao recebimento.

P.— É possível darmos um exemplo mais prático de como isto funciona?
R.— Vamos supor que você ganha R$ 1 mil por mês e tenha uma dívida comigo em que é obrigado a pagar R$ 300 por mês. Se você perder o emprego e passar a ganhar R$ 500 em outra ocupação, a tua capacidade de pagamento diminui e o teu risco de inadimplência aumenta.No País, quando a capacidade de pagamento diminui, o mercado fica receoso e o investidor estrangeiro vai em busca de investimentos em locais onde há menores riscos. O efeito prático é que o câmbio explode.

P.— Há expectativa de aumento do dólar nos próximos meses? Faria alguma previsão?
R.— A expectativa é que haja um aumento sim, mas é difícil fazer previsões. Os empíricos falam num câmbio de R$ 4 até o final de 2015, mas é difícil fazer uma avaliação porque há outras medidas que podem ser adotadas para interferir.

P.— É possível afirmar se o câmbio mais alto afeta muito a vida das pessoas?
R.— Depende muito, porque alguns são beneficiados pelo novo mercado. Quem trabalha com produtos que vão ser exportados, com a elevação da taxa de câmbio, o preço fica mais alto e o empresário acaba se beneficiando. No setor agroindustrial, vemos números positivos em relação à geração de emprego, pois empresas com este perfil, principalmente as maiores, tem conseguido aproveitar este mercado. Ao mesmo tempo, internamente, alguns setores ficam protegidos porque o dólar mais alto traz uma defesa da competição da indústria externa. Em relação aos setores de comércio e serviços, que dependem do consumo das família, com mais juros e menos créditos, a tendência é de queda no consumo. Embora, há alguns serviços essenciais que vão continuar a ser adquiridos e, este setores, não vão ter impactos.

P.— Qual o impacto da redução da meta fiscal e das consequências destas medidas para os estados e para os municípios?
R.— Hoje em dia, o que se verifica é que o governo federal tem cortado investimentos. E, alguns dos ministérios, vão haver novos cortes para garantir a meta muito baixa. O corte em investimento é complicado, mas até por questões políticas, é difícil que ocorram reduções no custo da máquina. Os repasses para os estados e municípios são construídos por lei publicada anualmente e, se há a dotação vai ter o recurso. Como há a previsão legal do repasse, o que pode acontecer é uma tentativa de dificultar o acesso e restringir o envio dos recursos, pois para haver cortes efetivos, vão ter que mudar a lei orçamentária.

P.— E a inflação? Há o risco de alta ainda maior por conta da mudança na meta fiscal?
R.— Quando se tem a situação de depreciação do câmbio e se reduz a capacidade de pagamento, cria-se uma expectativa de saída de recurso do País para outros lugares do mundo. Desta forma, o câmbio sobe e pode haver aumento de preços dos produtos domésticos. Então, existe sim a possibilidade de haver impacto na inflação, o que poderá exigir um aumento de forma significativa nos juros.

P.— Eespecula-se que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central vai elevar a taxa básica de juros para 14% na próxima reunião. O que isto representa no dia a dia das pessoas?
R.— Estas decisões tomadas pelo Copom em relação à taxa básica de juros são o resultado da avaliação dos técnicos do Banco Central em relação ao mercado. Quando tem aumento da taxa básica, que é a selic, há um aumento do spread bancário, o que torna o crédito mais caro. Vários bancos subiram nos últimos meses as taxas para financiamentos, investimentos e capital de giro.

P.— Um dos setores que corre o risco de perder com esta situação é o comércio?
R.— Se tivermos aumentos significativos na taxa de juros, sim. Vamos imaginar que você tenha R$ 1 mil e, se investir hoje este dinheiro, poderá ter uma taxa de 1,4% ao mês. Dentro desta conta, é interessante não gastar. O problema maior é o aumento da incerteza que, muitas vezes, faz com que as pessoas procurem constituir uma reserva de dinheiro por precaução, com medo de algo que possa acontecer . Pode ser que o comércio sofra os efeitos sim.

P.— Diante disto pode haver uma tendência de aumento da poupança?
R.— A poupança sofre repercussão do aumento do câmbio e da inflação e pode ter uma alteração com aumento no rendimento. Agora, é difícil saber se vai haver uma procura maior pela poupança.

P.— Nos últimos anos, Maringá teve um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) superior ao registrado pelo País. Para este ano, é possível prever se a economia local vai continuar a crescer?
R.— Existem grandes projetos que vão ocorrer nos próximos 5 anos com uma previsão de investimentos que representam 40% do PIB de Maringá. É um volume grande de investimentos, mesmo em tempo de crise. Claro que no setor privado pode haver um prolongamento do tempo de execução, mas vão ocorrer. E temos os investimentos públicos e a Prefeitura de Maringá vai manter a aplicação de recursos. Há projetos em andamento e, o mais importante, acredito que a situação atual da economia não terá influência direta em projetos de longo prazo. A prefeitura, em si, vai manter uma média de investimento de 20% do orçamento (o equivalente a R$ 200 milhões ao ano), mesmo com crise. E também existem empresários que, mesmo diante da redução do crescimento, vão continuar investindo. A crise econômica afeta no curtíssimo prazo. A visão de investimento de longo prazo não é afetada. A dificuldade é que as pessoas se apegam muito no curto prazo e chegam a achar que vai acabar o mundo. No entanto, as pessoas esquecem que perda de emprego e fechamento de empresas acontecem normalmente na economia, mesmo em períodos de maior aquecimento econômico. O abre e fecha das empresas é normal, a diferença é que os fechamentos aparecem de forma mais significante agora. Mas de um modo geral, as empresas têm uma visão de investimento em longo prazo.

P.— Podemos afirmar então que a economia de Maringá vai continuar a crescer, embora em ritmo menor?
R.— Sim, teremos uma redução na taxa de crescimento em relação a anos anteriores. Mas dentro da conjuntura atual da economia, existem vários investimentos que vão ter um impacto positivo na economia. Há muitas oportunidades de negócio que talvez tenham um tempo de maturação maior. O significativo é que temos um potencial de consumo na região e tem pessoas que recebem dentro de uma faixa acima da média salarial. Também temos um mercado de trabalho ativo. O que ocorre agora é que o empresário quer reduzir custos e o principal custo dentro da nossa economia é a folha de pagamento. Quando reduz a demanda, manda pessoas embora. E o perfil das pessoas que têm perdido a vaga de trabalho é parecido. Elas possuem ensino médio completo ou está iniciando a graduação. É comum ter pessoas assim em Maringá. Assim que houver melhoras, o empresário volta a contratar.

P.— No balanço da geração de empregos de Maringá, no primeiro semestre de 2015, tivemos até agora um saldo de 1,4 mil vagas de trabalho. Diante deste número, é possível apresentar uma expectativa sobre o balanço que teremos no ano de 2015?
R.— Vivemos um ano muito atípico. Como ocorreu um volume de demissões maior e de recontratações menor no primeiro semestre do ano, ainda não sabemos como será o saldo de dezembro, que normalmente é bem negativo. A pergunta é: será que vai ser tão negativo quanto em anos anteriores? Teremos novamente uma grande redução no final do ano ou acontecerá algo que não esperamos? Acredito que as empresas, a partir de agosto, vão começar a recontratar para atender a demanda do final do ano.

P.— Há um efeito positivo para o empresariado?
R.— Vejo que é o momento para os empresários aproveitarem para segurar bons funcionários e contratar gente mais especializada por preço menor. Ter mais pessoas na briga por cada vaga é bom para as empresas, que passam a ter condições de escolher e contratar candidatos com perfil melhor. É uma oportunidade para as empresas aproveitarem para melhorar a qualidade do serviço prestado.

ANÁLISE. Tonin entende que Maringá continuará a crescer, apesar das medidas tomadas pelo Governo Federal, mas essa taxa de crescimento será reduzida.

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